CASO SUPERPOP




Caso do Superpop onde muitos ficaram sabendo graças ao texto ("Máquina de moer gente" - abaixo) de uma das convidadas que circulou pela Internet.

Para quem não assistiu o video, esta é sua oportunidade! Ele foi gravado no formato WMV para o Windows Media Player e, devido ao seu tamanho reduzido (tem 3,6 Mb) a imagem não é de boa qualidade, mas pelo som, dá para entender e rever este caso pra lá de polêmico.

Detalhe sobre o ator Jorge Lafonf, que surpreendeu toda a comunidade GLBT. Em listas de discussões na web, dizem que ele não sabe mais dividir o que é dele e o que é do personagem "Vera Verão", do SBT.

....................................................................Fabrício Viana
.........................................................Campanha contra o Preconceito

Leia também sobre o RESULTADO, no final da página!



Máquina de moer gente
> leia enquanto faz o download do video <

Minha mulher e eu fomos convidadas pelo produtor do programa Superpop - que é veiculado diariamente na emissora Rede TV - e por sua assistente para comparecer ao programa do dia 12/03/02 para falarmos sobre direitos, preconceitos e problemas enfrentados por casais de lésbicas. Fomos contatadas por termos aparecido em uma matéria belíssima escrita para a Revista Elle de março pelo jornalista Mário Viana, profissional ético que muito nos honrou com a seriedade e delicadeza com que abordou o tema.

Quando conversei com a assistente de produção, perguntei como seria o programa. Ela me disse que seria uma entrevista, que o programa iria no mesmo sentido da Elle, ou seja, a proposta era séria. Perguntei quem mais iria e ela me disse que estava contatando as mulheres que tinham saído na revista e ainda elogiou a seriedade da matéria publicada. Em nenhum momento ela usou a palavra debate e não nos informaram com antecedência que haveria um advogado para falar contra o projeto de parceria civil. Fomos surpreendidas pela notícia quando já nos encontrávamos nos estúdios, quase para ser iniciado o programa. Minha mulher ficou preocupada, dizendo que nos haviam enganado, mas como um dos convidados era Luiz Mott, militante ferrenho pela causa gay, achamos que seria um debate com algum nível. Quando a editora do programa veio ao nosso camarim para dizer que o advogado era muito radical, mas que não era para nos deixarmos abater e que devíamos reagir, achei tudo estranho, mas na minha ingenuidade, ainda esperava que as palavras dadas fossem válidas e que existisse alguma ética no programa.

Quando fomos chamadas para o palco, antes mesmo de se iniciar o suposto debate, já havia um rodapé na tela anunciando: "barraco: gays falam sobre adoção" . Barraco? Como, se a discussão ainda nem tinha sido iniciada? A palavra "barraco" foi substituída por "polêmica" e ainda permanecia um estranhamento - não tocamos no tema adoção em nenhum momento!

A apresentadora Luciana Gimenez fez perguntas aos outros convidados, mas antes que minha mulher e eu fôssemos inquiridas, a pergunta foi dirigida ao advogado Celso Vendramini, que começou a responder em voz alta, logo passando a gritos, ofendendo-nos de uma forma grosseira e absurda, impedindo qualquer possibilidade de troca de idéias, de debate sério. O objetivo era o mero achincalhe, o que foi comprovado quando houve a intervenção de Vera Verão por telefone, para minha estupefação apoiando totalmente as opiniões homofóbicas do tal advogado.

Não tivemos direito de falar, não pudemos expor calmamente nossas idéias, não pudemos fazer nada além de tentar conter o fluxo alucinado de ofensas que o advogado nos dirigia continua e impunemente, sem nenhuma intervenção séria da apresentadora, que não impediu que fôssemos humilhadas em rede nacional de TV.

Acontece que somos pessoas sérias, realizamos trabalhos importantes pela causa dos gays e lésbicas de nosso país e não estávamos lá para servir de palhaças para animar o circo do programa. Não admitimos que os (ir)responsáveis pelo programa possam continuar impunemente usando pessoas para conseguir elevar os pontos de audiência de seu risível programa. Não estamos atrás de fama, não somo pessoas deslumbradas, não pagamos qualquer preço para aparecer na TV. Se concordamos em nos expor, correndo riscos de perdas profissionais, inclusive, era com um único objetivo: tentar fazer nossa parte para diminuir preconceitos e lutar por nossos direitos. Ao sermos ridicularizadas, ofendidas e humilhadas, sentimo-nos não em um programa de auditório, mas passando por uma enorme máquina de moer gente. O que justifica isso? O que justifica usar pessoas para uma situação previamente armada para virar baixaria? Que ética existe em um programa que mente para conseguir levar convidados e os expor publicamente ao ridículo?

Não me venham com a risível desculpa de que o programa e as pessoas saíram de seu controle. Hoje sabemos que vocês armaram o "barraco" propositalmente, já que uma convidada (uma conhecida e respeitada advogada) foi "desconvidada" na véspera porque o produtor não quis expô-la ao ridículo, já que ele sabia de antemão que a direção do programa desejava apenas baixaria para aumentar audiência. Quem deu direito ao senhor produtor de não nos considerar pessoas sérias? Quem deu aos senhores da direção do programa o direito de nos fazer passar por um vexame daquele? Quem deu à apresentadora o direito de abusar da nossa imagem, constrangendo-nos sem prévia autorização? As pessoas que passam por aquelas ridículas pegadinhas têm direito de não autorizar sua exposição vexaminosa, direito que nos foi negado, já que o programa foi ao vivo e previamente preparado para virar um bate-boca inútil e sensacionalista.

Queremos com este protesto, prezados senhores, avisar que gays e lésbicas sérios não se prestam a esse papel. O mundo está mudando, estamos conseguindo - com muita luta e sacrifícios pessoais -conquistar direitos mínimos que aos outros são garantidos sem esforço. Vocês estão na contramão da história, prestando um desserviço não só a gays e lébicas, mas a toda a população, na medida que, ao invés de informar e educar, vocês usam o poder que lhes é conferido para humilhar e ridicularizar.

Queremos também avisar que exigimos respeito e que vocês vão responder na justiça pelos danos que nos causaram. Não fosse o movimento gay estar altamente organizado e articulado, talvez ainda estivéssemos em profunda depressão por tudo o que nos fizeram passar de forma cruel, absurda e grotesca.

Queremos que vocês saibam que daqui para frente sairá mais barato e dará menos dores de cabeça se vocês contratarem palhaços profissionais para o picadeiro que armam sem nenhum sentido de ética e decência. E que não há nada que justifique essa agressão que sofremos de forma vil e covarde.

E não se esqueçam: somos pelo menos 17 milhões de pessoas no país. Se há meia dúzia de inconseqüentes como Vera Verão (ser grotesco que ganha a vida fazendo gays caricatos na TV ), vocês podem ter certeza de que há 16.999.994 de gays sérios e decentes que não agüentarão mais calados este tipo de achincalhe grosseiro e nojento.

Aguardem notícias nossas. Sua atitude foi vil e, saibam, não ficará por isso mesmo, podem ter certeza!

Atenciosamente,
Valéria Melki Busin
escritora



People-Mincing Machine

My partner and I were invited by the producer and assistant producer of the TV show "Superpop" - a daily broadcast by REDE TV (Brazilian TV station) - to be part of the March 12, 2002 show to speak about the rights, prejudices and problems faced by lesbian couples. We were contacted because we were part of a beautiful article written for the magazine "Elle", March 2002 edition, by the reporter Mario Viana. Mario Viana is an ethical professional who honored us with his serious and sensitive approach to the issue.

When I talked to the assistance producer, I asked about the format of the show. She told me that it would be an interview and that the show would be in tune with the article in "Elle", which I understood to be a serious proposal. I asked her who else would participate, and she told me that she was contacting the women profiled in the magazine. She paid a compliment to the seriousness of the published article. She never used the word "debate" and did not, at any time, inform us of the participation of an attorney to speak against the project of civil partnership law. We were surprised by the news when we were already in the TV studio, the show about to start. My partner was worried, saying that we had been misled by the show. However, Luiz Mott, a fighter for the gay cause, was one of the guests; we therefore concluded that such debate would be fair. When the show editor came to our room to say that the attorney was very radical but we should react, I thought that to be a strange comment, but in my naïveté, I still hoped that the promises were valid and that there would be some ethics in the show.

When we were called to go to the stage, even before the "debate" started, there was already a screen footnote announcing: " 'barraco': gays speak about adoption" ("barraco" is a term used in the Brazilian TV to mean vulgar manifestation of guests and audience). "Barraco"? How come, if the discussion had not even started? The word "barraco" was substituted by "polemic" and there was still that alien issue of adoption - we never talked about such a theme in any moment!

The show hostess, Luciana Gimenez, asked questions to the other guests, but before approaching my partner and myself, directed a question to the attorney Celso Vendramini. The attorney started to answer very loudly, and soon started to shout, offending us in a very nasty and absurd way, not allowing any possibility of exchange of ideas or adequate debate. The goal was mere offense, fact that was proven when Vera Verão (a brazilian gay actor) intervened via telephone - to my surprise, supporting the lawyer's homophobe positions.

We did not have the right to speak, we could not talk about our ideas, we could not do anything but try to stop the flow of offenses which the lawyer directed to us continuously, without any intervention from the hostess, who permitted us to be humiliated on national TV.

It happens that we are serious and dedicated people. We perform important work for the Brazilian gay and lesbian cause, and we were not there to be that circus' clowns. We cannot envision the (ir)responsible people for the show to continue using people in order to get better audience rates for their insignificant show. We are not seeking the so-called "15 minutes of fame" and we do not pay any price to be on TV. If we agreed to participate in the show, with a risk of professional losses, it was with one and only goal: to try to do our share to erase prejudice and fight for our rights. When ridiculed, offended and humiliated, we feel not in a talk show, but going through a people-mincing machine. What is the justification for that? What is the justification for using people for a previously arranged situation to become vulgarity? Which ethics exist in a show that lies and
publicly humiliates its guests, ridiculing them?

Please, do not give me the excuse that the show and the people got out of control. We know now that you prepared the whole thing on purpose: you cancelled the appearance of a very well-known and respected lawyer the day before of the show, because the producer did not want to humiliate her - the producer knew before hand that the director of the show wanted only vulgarity to increase audience rates. Who gave the producer the right not to consider us decent and serious people? Who gave you, show directors, the right to make us undergo such a humiliating ordeal? Who gave the show hostess the right to abuse our image, constraining us without our authorization? People undergoing ridiculous situations on TV have the right
to not authorize their humiliation to be shown. Such right was denied to us since the show was live and set up to become a tasteless forum of vulgarity.

With this protest, dear sirs, we want to let you know that us, decent and serious gays and lesbians, do not accept being humiliated like that. The world is changing and we are achieving - with a lot of personal sacrifice
and efforts - the conquest of minimal rights routinely granted to others without such effort. You are on the wrong side of history, and causing damage not only to gays and lesbians, but also to the entire population.
Instead of informing and educating, you use the power granted to you to humiliate and ridicule.

We also want to inform you that we demand respect and that you will go to court to deal with the damages caused to us. If the gay movement were not highly organized and articulate, maybe we would be ill and deeply depressed in view of this cruel and grotesque ordeal.

We would like you to know that, from now on, it will be cheaper and will cause you much less pain if you hire professional clowns for your senseless, indecent circus. And that there is no justification for the aggression we
suffered in a vile and coward way.

Don't forget: we are at least 17 million gay people in Brazil. If half-dozen of inconsequent gays like Vera Verão (grotesque being making a living by impersonating drag queens on TV) exist, you can be sure that there are
16,999,994 decent and honest gays who won't be quiet before this type of gross and indecent treatment.

Wait for our news. Your attitude was vile and you can be sure it won't be forgotten - you can be sure of that.

Sincerely,

Valéria Melki Busin
writer


RESULTADO

Não levar desaforo pra casa!

Esta foi a receita mágica da Valéria que, com o texto acima espalhado na Internet, com o Ato de Repúdio na Câmara Municipal de São Paulo, com o processo judicial sobre os responsáveis e outras atitudes, movimentou muita gente e chamou a atenção da imprensa e de autoridades importantes.

Quanto ao programa Superpop, embora tenha notícias de que algumas pessoas foram demitidas e que o programa deixou de ser exibido de 6 para 3 vezes por semana, "aparentemente" tenta contornar o assunto.

Hoje mesmo, 24/05/2002, gravei uma entrevista com o tema de filhos de travesti, que também estou disponibilizando aqui (clique aqui para baixar, tem 4,0 Mb). Se perceberem aos detalhes, a apresentadora comenta sempre algo que diz "graças a Deus existem programas como este que esclarecem o assunto". Fora outros comentários POSITIVOS da apresentadora.

Isso é muito importante.

Detalhe é que eles não estão fazendo isso (se retratando discretamente) porque são "bonzinhos". Não é nada disso. Eles estão fazendo isso porque sabem da besteira que fizeram, viram seu nome sendo divulgado em diversos jornais e revistas sobre o assunto e perceberam que, mesmo com um programa de TV, eles não possuem um "poder supremo" onde podem fazer o que quiser com ele para ganhar IBOPE.

Sim, estamos de olho. Claro que desejamos que o programa Superpop melhore e muito. Continue assim, com o lado POSITIVO e não NEGATIVO (discriminatório, seja de quem for). Mesmo porque, agora está sendo criado uma ONG que irá monitorar a mídia. Não "censurar", mas trabalhar em conjunto com a mesma em pró da imagem positiva do homossexual brasileiro. Algo semelhante a organização GLAAD, nos EUA. Caso queira participar como VOLUNTÁRIO, envie seu e-mail para campanhaglbt@uol.com.br se apresentando e solicitando maiores informações

Por enquanto é isso. Parabéns a você Valéria e a todos que não ficam quietos em situações como esta. Tem que se expor, tem que batalhar, tem que seguir em frente. Quem dera outras pessoas venham, daqui pra frente, lutar também por seus direitos! É isso ai!

....................................................................Fabrício Viana
.........................................................Campanha contra o Preconceito